No começo de 2016 fui a um neurologista. Fiz exames em quantidade industrial, nada apareceu. O diagnóstico foi um vazio clínico, e a solução teve nome comercial: Pristiq, 50 mg.
Na farmácia, a cifra caiu como um segundo diagnóstico: 200 reais por 28 dias. Um mês inteiro comprimido numa cartela. O dinheiro, que já era a causa, passava a ser também o tratamento. Aceitei assim mesmo. Tomei. Nos primeiros dias, a cabeça virou uma sala iluminada demais: foco obsessivo, sonhos como viagem de LSD, cores que pareciam querer me convencer de alguma coisa. Depois, o brilho sumiu. O mundo voltou à sua densidade opaca. A solução óbvia (e errada) foi dobrar a dose, como quem aumenta o volume para não ouvir o silêncio.
No retorno ao neuro, confessei a escalada. Saí com a bênção médica para o teto: 200 mg. Dois comprimidos de 100 mg por dia. Quatrocentos e cinquenta reais por mês. Eu trabalhava para sustentar um remédio que prometia me devolver a capacidade de trabalhar. O círculo fechava com precisão geométrica.
Numa festa, misturei álcool e essa dosagem. O resultado não foi alegria nem esquecimento, foi uma implosão química: chão, roupa no chão, água fria jogada por amigos, uma cena que quase todo mundo esqueceu porque ninguém quer lembrar. Continuei. Até que vieram as tonturas, aquelas que não pedem licença: o cérebro girando como um motor sem óleo, o corpo caindo por falta de acordo com o espaço. Parei de uma vez, depois do último comprimido, pois dinheiro não se joga fora. Três dias sem eixo, como se tivessem arrancado algo essencial e não avisado o resto do corpo. Nunca mais voltei ao consultório.
Em 2017, sem aviso, a depressão foi embora.
Será que o Neuro acha que eu me matei? Porque quem tomava dose máxima de um potente antidepressivo não some assim do nada sem que não esteja num caixão, sei lá.
Na farmácia, a cifra caiu como um segundo diagnóstico: 200 reais por 28 dias. Um mês inteiro comprimido numa cartela. O dinheiro, que já era a causa, passava a ser também o tratamento. Aceitei assim mesmo. Tomei. Nos primeiros dias, a cabeça virou uma sala iluminada demais: foco obsessivo, sonhos como viagem de LSD, cores que pareciam querer me convencer de alguma coisa. Depois, o brilho sumiu. O mundo voltou à sua densidade opaca. A solução óbvia (e errada) foi dobrar a dose, como quem aumenta o volume para não ouvir o silêncio.
No retorno ao neuro, confessei a escalada. Saí com a bênção médica para o teto: 200 mg. Dois comprimidos de 100 mg por dia. Quatrocentos e cinquenta reais por mês. Eu trabalhava para sustentar um remédio que prometia me devolver a capacidade de trabalhar. O círculo fechava com precisão geométrica.
Numa festa, misturei álcool e essa dosagem. O resultado não foi alegria nem esquecimento, foi uma implosão química: chão, roupa no chão, água fria jogada por amigos, uma cena que quase todo mundo esqueceu porque ninguém quer lembrar. Continuei. Até que vieram as tonturas, aquelas que não pedem licença: o cérebro girando como um motor sem óleo, o corpo caindo por falta de acordo com o espaço. Parei de uma vez, depois do último comprimido, pois dinheiro não se joga fora. Três dias sem eixo, como se tivessem arrancado algo essencial e não avisado o resto do corpo. Nunca mais voltei ao consultório.
Em 2017, sem aviso, a depressão foi embora.
Será que o Neuro acha que eu me matei? Porque quem tomava dose máxima de um potente antidepressivo não some assim do nada sem que não esteja num caixão, sei lá.