Eu às vezes paro para olhar as pessoas na rua. Não por curiosidade, mas por
um tipo estranho de cansaço. Como se eu quisesse entender alguma coisa antes de desistir de entender. Tem um homem esperando o ônibus. Ele segura uma sacola plástica com cuidado demais, como se dentro houvesse algo que pudesse quebrar. Talvez seja só pão. Talvez seja remédio para alguém em casa. Talvez ele esteja voltando para um lugar onde ninguém pergunta como foi o dia dele. Uma mulher passa falando ao telefone e ri de alguma coisa. O riso dura poucos segundos, mas eu penso em tudo que pode existir atrás dele: brigas que não terminaram, noites em claro, alguém que ela perdeu, alguém que ela ainda ama e não deveria. E então percebo que cada pessoa aqui é um abismo inteiro. Uma biografia secreta andando sobre duas pernas. Cada uma já teve um momento em que acreditou que a vida finalmente ia dar certo. Cada uma já sentiu aquele instante pequeno em que tudo pareceu possível e depois viu aquilo se dissolver, devagar ou de uma vez. O problema é que nada disso aparece por fora. Por fora são só pessoas atravessando a rua, comprando café, olhando o celular, reclamando do calor. Mas dentro existe uma coisa enorme. Uma quantidade absurda de lembranças, medos, arrependimentos, pequenos amores que ninguém mais lembra. E eu fico tentando encontrar algo de bonito nisso. Alguma prova de que tanta complexidade não é só desperdício. Que todo esse sofrimento, toda essa esperança repetida milhões de vezes, significa alguma coisa. Mas às vezes parece que somos apenas isso: histórias profundas demais vivendo em superfícies rasas demais.