DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Mário Quintana
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Mário Quintana

anônimo

anônima
24/07/2023 23h54
Ao leitor por Charles Baudelaire
“A estultícia, o engano, o pecado, a avareza,
Ocupam-nos a
mente e os nossos corpos minam, E remorsos amáveis nosso corpo animam,
Como o mendigo ao verme que ele tanto preza.
Nossos pecados são duros, tíbio o pesar,
Vendemos a alto preço as nossas confissões,
E voltamos com gozo aos barrentos rincões,
Com vis prantos achando as nódoas apagar.
Do mal no travesseiro é Satã Trismegisto
Que embala lentamente a nossa alma encantada,
E o tão rico metal da vontade enleada
Faz-se vapor na mão desse sábio alquimista.
O Demo é quem segura o fio que nos guia!
Achamos sedução nas coisas mais nojentas;
Sem horror, através das trevas fedorentas.
Pro Inferno um passo a mais nos leva a cada dia.
Qual pobre garanhão que devora na transa
De alguma velha puta o seio dolorido
Queremos de passagem prazer escondido
que esprememos tal qual bagaço de laranja.
Cerrado, a formigar como um milhão de helmintos,
Um povo de Demônios folga em nossa mente,
E a Morte, ao respirarmos, no pulmão, fremente,
Desce, invisível rio, em queixume indistinto.
Se o estupro, o incêndio, o veneno, o punhal,
Não lhes bordaram inda em desenhos risonhos
O rascunho banal de seus dados tristonhos
É que nossa alma, é pena, a isso se presta mal.
Mas em meio às cadelas, onças e chacais,
Macacos, escorpiões , gaviões e serpentes,
Os monstros a ganir, rosnar, pelo chão rentes,
Na fauna infame e vil dos vícios ancestrais
Existe um mais feio, e maldoso, e imundo!
Embora sem fazer grandes gestos, gritar,
É capaz de em frangalho a terra transformar
E num só bocejar engoliria o mundo;
É o Tédio! — carregado o olhar de pranto vão,
Ao fumar seu cachimbo em sonhos mergulhado,
Tu conheces, leitor, tal monstro delicado,
— Hipócrita leitor — meu igual — meu irmão ! “