Sou um rato, ou algo funcionalmente equivalente a um rato, o que talvez seja pior, porque ao menos o rato verdadeiro não precisa perder tempo pensando sobre isso. Um pequeno organismo cinzento que vive no subsolo moral de si mesmo. Um desses animais que se acostumam tanto ao esgoto que passam a confundir o cheiro com o ar.
Nos meus sonhos, estou afogando. Eu caio de uma plataforma em uma piscina de esgoto e não consigo sair. Sequer me debato. Apenas afundo, inerte, com uma contração no rosto enquanto todos me observam afundar. Cada segundo que passa, afundo mais, e o som vai ficando abafado, e a visão turva. Tudo fica preto, não há mais som, mas eu existo. Estou em uma posição fetal, e ponho minhas mãos em meus ouvidos, fecho os olhos e tento chorar, mas não sai lágrima.
Então eu acordo, observo a luz do sol entrar no meu quarto, e sinto dor.