É normal se afastar de uma amiga por causa disso?

anônima
Conheço essa menina há uns anos e sempre tivemos uma amizade bacana, e pra ser honesta, a amizade mais duradoura que tive. Através dela, conheci um rapaz com quem acabei me relacionando por uns meses, quase namorei com ele, não deu certo e ainda ficamos casualmente, mas já perdemos contato por falta de afinidade.
Como era amigo em comum, de vez em quando minha amiga comentava dele, de forma zuera...
eles respondem
Minha estimada senhora, permita-me dizer-lhe, com a devida compostura de um espírito moldado pelos rigores vitorianos, que não há amargura alguma em resguardar o próprio coração quando este se encontra fatigado.

O que a senhora descreve não é senão um delicado embaraço dos afetos mas sim uma situação em que a memória, ainda sensível, é continuamente evocada por circunstâncias externas. Não se trata de inveja vulgar, tampouco de ressentimento mesquinho, mas de algo mais digno, o natural desconforto de quem ainda não se desvencilhou por completo de expectativas outrora nutridas.

Sua amiga, ao mencionar o referido cavalheiro com leveza e frequência, talvez o faça sem malícia, contudo, a repetição de tais alusões pode agir como uma agulha insistente sobre um tecido já fragilizado. E ninguém de bom senso exigiria que se permanecesse impassível diante disso.

Afastar-se, ainda que parcialmente, não é um ato de aspereza, mas de prudência. Na boa sociedade e mais ainda na boa consciência, é considerado virtuoso reconhecer os próprios limites emocionais e agir de modo a preservar a serenidade interior.

Seria amargura se houvesse desejo de diminuir outrem ou regozijo na privação alheia. Mas o que vejo em vossa atitude é antes uma busca por recolhimento e equilíbrio, o que me parece não apenas justificável, mas sensato.

Permita que o tempo, esse hábil alfaiate da alma, reajuste as medidas de vossos sentimentos. Com o devido intervalo, aquilo que hoje fere poderá, amanhã, apenas ecoar como uma lembrança distante, desprovida de dor.

Assim, não vos censureis em demasia, antes, concedei a si mesma a mesma gentileza que tão prontamente ofereceríeis a outrem.