Tenho 20 anos e nunca tive um relacionamento. Isso não foi uma escolha consciente, mas consequência direta da forma como fui criada e do ambiente familiar em que sempre vivi.
Meus pais são casados, porém atualmente moro com minha mãe na casa dos meus bisavós, na cidade. Estamos aqui temporariamente porque meu irmão, de 8 anos, é autista e estuda aqui, além de meus bisavós precisarem de ajuda diária. Eu ajudo minha mãe com a casa, com os cuidados deles e com meu irmão. Sempre fui responsável, reservada e cuidadosa.
Meu pai mora em uma cidade vizinha. Ele é muito rígido e não lida bem com discordâncias. Conversas costumam virar imposição e agressividade verbal. Cresci entendendo que questionar não era bem-vindo. Minha mãe, apesar de às vezes parecer mais compreensiva, vive muito influenciada pelo medo da reação dele e, em conflitos, costuma usar a ameaça de contar tudo a ele como forma de pressão.
Fui criada em um ambiente de vigilância constante, especialmente em relação a homens e vida afetiva. Sempre ouvi alertas baseados no medo, mas raramente houve incentivo à autonomia ou diálogo.
Recentemente, na virada do ano, conheci um rapaz de 28 anos em uma reunião de família. Depois disso, conversamos pelo Instagram por cerca de uma semana, sempre com respeito. Falávamos sobre trabalho, estudos, planos e vida. Em nenhum momento houve comportamento invasivo.
Ele me convidou para algo simples: tomar um sorvete em uma praça pública, no início da noite. No dia do encontro, ao contar a verdade para minha mãe, tudo virou tensão. Ela passou a enfatizar riscos extremos (tirar minha virgindade, segundo ela) , disse que não permitiria minha saída e ameaçou contar tudo ao meu pai. Diante do histórico de reações dele, entrei em pânico e cancelei o encontro.
O ponto não é o encontro em si, mas perceber que, aos 20 anos, não tenho autonomia nem para algo comum à minha idade. Não se trata de rebeldia, mas do desgaste de uma criação baseada no controle, no medo e na ausência de diálogo.